2014/08/02

Crônica



                                                             A palavra é...

Toda forma de odiar é, a princípio e por si própria, odiosa. Digo a princípio na medida em que muitas vezes não nos damos conta exatamente dos pesos nos pratos da balança que utilizamos para quantificar o desastrado resultado de uma ação externa para cada um.
Nosso alvo é muito próprio, assim como as respostas muito específicas. Mas vamos nos dar a licença de ao menos discutir o ódio ao que semeia o mal, muito embora semear me pareça uma palavra tão bela que temo inseri-la na seara dos contrários.
Como exemplo, quem pode, livrando-se de qualquer culpa, deixar de odiar a desfaçatez? Praga dos tempos na sociedade, aquele que a utiliza não chega a ser um indivíduo, um ser pensante ou atuante no sentido em que se raciocina a construção. Finge sempre ser algo que não é, e não consegue fingir aquilo que é de fato. Uma lástima como pessoa, um moribundo que não consegue seguir seus próprios passos. Mas há um degrau ainda abaixo. Combinada com a dissimulação, a desfaçatez ganha uma robustez desprezível, transformando seu hospedeiro num objeto que se vangloria intimamente de aspergir angústia.
Há apenas os que mentem, os que mentem intencionalmente para causar algum efeito negativo, e há os dissimulados. Dê-se a um pequeno luxo no dia a dia das boas ações, e quem quiser pode odiar os dissimulados. Certamente há perdão pronto para isso. Fabricam as pequenas ações, agem com a desfaçatez de fazer você saber o que fizeram, a quem fizeram, de maneira, idiota, quase sempre, de tentar demonstrar que não sabem que você sabe, ou mesmo que são inocentes e de modos ingênuos. São pequenos, muito pequenos os dissimulados. Perceptíveis, obviamente, mas solitários, vazios e pobres, no mais amplo sentido que o termo possa alcançar.
Felizmente, jamais veremos hordas de dissimulados. Não suportam a si mesmos, não agregam, não participam, não convivem, da maneira como concebemos. Muitas vezes eficaz, seu modo de agir está longe da originalidade, e é isso que a princípio os faz não serem desmascarados de imediato. Surgem, inoculam as toxinas, e são seus efeitos que aos poucos os rechaçam, até que busquem outras aldeias.
Se não quiser, não odeie os dissimulados, ou a própria desfaçatez. Mas não se reprima, não se abata. Lembre-se que os excluídos são eles. Abata-os com o afastamento direto, sem meias palavras, como a piada curta e grossa em meio ao grupo que acabou de se formar.
Lembre-se que os infelizes, na verdade, são eles, incompetentes de raiz, e que nas rodas de cafés, nos encontros com amigos e companheiros, na risada diária, sob sol ou chuva, o que vale para nós é sentir o vento e o tempo, e que os olhares nos olhares são algumas das formas mais dignas de se mostrar e tentar conhecer. 

Luciano Aquino Azevedo


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