2016/04/05

Gilmar Mendes diz que Lula poderá ser enquadrado em crime penal

Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes disse nesta terça-feira (5) que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá se enquadrado em crime penal após sua indicação como ministro da Casa Civil.

“O que ressai é a impressão de que pode ter ocorrido mesmo não um crime de responsabilidade, mas um crime do código penal, que é o crime de falsidade, a possibilidade de que pode ter havido de fato a declaração falsa de posse do presidente Lula”, disse Mendes em declaração reproduzida pelo Estadão.
Lula foi indicado por Dilma Rousseff ao cargo de ministro da Casa Civil do governo federal, mas a medida foi vista por alguns juristas como uma obstrução à investigação da Operação Lava Jato, uma vez que o ex-presidente passaria a ter foro privilegiado e não seria mais julgado por Sérgio Moro.
O juiz federal, por sua vez, revelou em gravações telefônicas que Dilma chegou a enviar a Lula um termo de posse antes da cerimônia, “caso fosse necessário”.

‘Não conhecia impeachment de vice-presidente’

Em conversa com jornalistas antes da sessão da Segunda Turma do STF, nesta manhã, Mendes disse também que a Câmara dos Deputados poderá recorrer à Corte para questionar a decisão do ministro Marco Aurélio, que determinou a abertura de processo de impedimento do vice-presidente, Michel Temer.
“Eu também não conhecia impeachment de vice-presidente. É tudo novo para mim. Mas o ministro Marco Aurélio está sempre nos ensinando”, ironizou.
Marco Aurélio aceitou liminar, em mandado de segurança, impetrado pelo advogado Mariel Marley Marra, de Minas Gerais, que entrou com o mesmo pedido na Câmara dos Deputados, mas foi rejeitado pelo presidente, Eduardo Cunha. A decisão do ministro foi divulgada antecipadamente por engano na sexta-feira (1º) e confirmada hoje.

Defesa da Câmara

Em manifestação enviada na segunda (4) ao Supremo, a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados diz que não aceita intervenção do Judiciário nas atividades da Casa. A Mesa justificou a decisão de Cunha, que negou seguimento ao pedido de abertura de processo de impeachment contra Temer.
Para a Câmara, além de tratar-se de um pedido genérico, o vice-presidente não pode responder por crime de responsabilidade, porque assume eventualmente a Presidência da República. Assim como a presidenta Dilma Rousseff, Temer é acusado de assinar decretos sem previsão orçamentária. Ambos afirmam que não houve irregularidade nos decretos.

Artigo - Denis Lerrer Rosenfield

O impeachment ou o caos

O governo Dilma, o ex-presidente Lula e o PT devastaram a coisa pública, produzindo um cenário de terra arrasada

Embora o governo já tenha acabado, a presidente Dilma, Lula e o PT se agarram por todos os meios ao poder. Utilizando uma linguagem popular: não querem largar o osso de forma nenhuma!

Os meios são os mais diversos possíveis, apesar de terem uma denominação comum: a ausência de escrúpulos, a falta de pudor e a desconsideração de toda moralidade. Tudo vale, contanto que o aparelhamento partidário do Estado seja mantido e os seus “benefícios” conservados.

Os paparicados de ontem tornam-se os “golpistas” de hoje. A fábrica de destruição de imagens volta a funcionar a todo o vapor, tendo agora como alvos prediletos o vice-presidente Michel Temer e o PMDB. A estratégia é velha conhecida, tendo sido utilizada frequentemente pelo PT. Incapaz de se defender e de dar conta dos seus atos, volta-se para o ataque, atribuindo aos outros os seus próprios feitos.

Por exemplo, culpa o “neoliberalismo” e o “ajuste fiscal” (não realizado, aliás) por uma crise produzida por ele mesmo, graças a tal da “nova (vetusta) matriz econômica”, da irresponsabilidade fiscal, da destruição da Petrobras, do descontrole dos gastos públicos, da tolerância com a inflação e assim por diante. Em uma curiosa perversão, responsabilizam os outros por sua própria irresponsabilidade.

O governo Dilma, o ex-presidente Lula e o PT devastaram a coisa pública, produzindo um cenário de terra arrasada. A corrupção tornou-se um meio de governar. Os escândalos mostram milhões e bilhões de reais sendo apropriados partidária e privadamente em conluio com empreiteiras inescrupulosas. O discurso, no entanto, é o de que, se corrupção há, seria igual em todos os partidos.

A lama é atirada em todos para justificar a sua própria sujeira. E, embuste maior, a crise atual teria como responsável o “capitalismo” e a “direita”!

O país ruma para a crise social, com o desemprego aproximando-se de dez milhões de pessoas, em curva ascendente, a inflação próxima de dois dígitos e uma quebra geral de expectativas. A dita classe média ascendente, que acreditou na ficção política petista, está sendo arremessada de volta à sua condição anterior. Saborearam a mudança e, agora, tudo perderam. E qual é o discurso: o PT defende os pobres e o emprego! Haja cinismo!

Politicamente, o governo continua em seu persistente esforço de dividir o PMDB e de destruir a coesão de qualquer partido que se interponha em seu caminho. A hegemonia petista não permite nenhuma alternativa partidária.

Com a abandono amplamente majoritário do PMDB, com alguns fisiológicos mais extremados ainda resistindo, o governo Dilma partiu para uma “repactuação”. Nome bonito que significa apenas uma negociação ainda mais imoral com o baixo do baixo clero dos partidos, que ainda pretendem saquear um pouco mais os cofres públicos. Seria a sua última chance! É a fisiologia em estado puro, sem nenhum disfarce. Haja falta de vergonha!

Ideologicamente, a narrativa petista é a de “resistência ao golpe”, que é nada mais do que uma preparação para a passagem sua à oposição, caso, como tudo indica, o impeachment vingue. O desrespeito à Constituição é manifesto, pois o impeachment é um instituto constitucional. Aliás, o próprio PT saudou o rito deste instituto quando estabelecido pelo Supremo. No passado, defendeu o impeachment do ex-presidente Collor e propôs o impeachment do ex-presidente Fernando Henrique. Para eles, a Constituição é somente um papel descartável, cuja serventia depende unicamente do seu uso partidário.

Considere-se, contudo, a possibilidade de que o governo, em seu afã de sobrevivência e falta de escrúpulo com a coisa pública, consiga um quórum que lhe permita se salvar do impeachment. Imaginem a seguinte situação: graças às suas manobras fisiológicas e outras, o governo teria conseguido impedir que as oposições reúnam os 342 votos necessários, tendo chegado a 340.

Qual seria a legitimidade de um governo deste tipo? Como poderia governar? Como seria capaz de tirar o país do buraco em que ele mesmo o colocou?

O amanhã seria de mais crise econômica, mais fisiologismo e corrupção, mais desemprego, mais indignação moral e, talvez, convulsão social. A crise, em suas mais diferentes facetas, só se acentuaria.

O governo Dilma, para além de sua incompetência, foi incapaz de reconhecer os seus próprios erros.

O PT, aliás, tem como único mote a sua repetição. Até o ex-presidente Lula, que teve um primeiro mandato sensato do ponto de vista econômico, adotou a mesma bandeira do descalabro fiscal e de destruição das instituições. Hoje teme a prisão, assim como vários de seus companheiros.

Se o impeachment não vingar, o país ruma para o caos.

Abre-se, porém, uma oportunidade, a de que o impeachment seja uma operação bem-sucedida, com deputados e senadores voltados para um bem maior que é o país. O desafio diante de nós seria enorme: tirar o Brasil do precipício no qual se encontra.

Trata-se de uma saída constitucional, que preservaria nossas instituições e oferecia aos cidadãos uma real alternativa, não apenas de poder, mas, sobretudo, de futuro. Urge que o país entre em um processo de pacificação e de unificação nacional. O governo atual já se mostrou claramente incapaz de um empreendimento deste tipo. Se ainda procura resgatar esse discurso, é apenas para encenar um fiapo de credibilidade.

Em caso de impeachment, assumiria o vice-presidente, que tem afirmado reiteradamente o seu compromisso com as instituições, com o prosseguimento da Lava-Jato e com um projeto de transformação do país, baseado, precisamente, em um grande pacto nacional.

Isto significa que todos os partidos deveriam ser chamados para colaborar com esse projeto de reunificação nacional. Todos os que ainda estiverem presos aos “cargos” e às suas "benesses" deveriam ser deixados pelo caminho, pois escolheram o passado — que está passando rapidamente!

A oportunidade é única. Não podemos perdê-la!


Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul

http://oglobo.globo.com/opiniao/o-impeachment-ou-caos-19006332

2016/04/04

NYT: Teia de corrupção enredou o Brasil



O jornal The New York Times traz em sua manchete nesta segunda-feira uma reportagem especial sobre a crise política brasileira. Os textos, assinados pelo correspondente Simon Romero, descrevem a Operação Lava Jato e relacionam os escândalos de corrupção envolvendo a Petrobras e figuras centrais do governo com a crise política que afeta a governabilidade. Abaixo da chamada principal (Como a teia de corrupção enredou o Brasil, em tradução literal), ilustrada com uma grande foto da presidente Dilma, há ainda imagens do senador Delcídio do Amaral e do ex-presidente Lula.
O jornal americano entrevistou o senador e explicou seu papel como um dos protagonistas da crise política. Delcídio, foi preso acusado de obstrução da Justiça e fez um acordo de delação premiada para diminuir sua pena.
O jornal The New York Times traz em sua manchete nesta segunda-feira uma reportagem especial sobre a crise política brasileira. Os textos, assinados pelo correspondente Simon Romero, descrevem a Operação Lava Jato e relacionam os escândalos de corrupção envolvendo a Petrobras e figuras centrais do governo com a crise política que afeta a governabilidade. Abaixo da chamada principal (Como a teia de corrupção enredou o Brasil, em tradução literal), ilustrada com uma grande foto da presidente Dilma, há ainda imagens do senador Delcídio do Amaral e do ex-presidente Lula.
O jornal americano entrevistou o senador e explicou seu papel como um dos protagonistas da crise política. Delcídio, foi preso acusado de obstrução da Justiça e fez um acordo de delação premiada para diminuir sua pena.

http://96.126.119.23/banda-larga/new-york-times-teia-de-corrupcao-enredou-o-brasil

http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/nyt-teia-de-corrupcao-enredou-o-brasil

Mercado financeiro projeta queda da economia em 3,73% este ano

A projeção de instituições financeiras para a queda da economia este ano passou pelo 11º ajuste consecutivo. Agora, a estimativa para a queda do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todos os bens e serviços produzidos no país, foi alterada de 3,66% para 3,73%.

Para 2017, a expectativa de crescimento foi reduzida de 0,35% para 0,30% no terceiro ajuste seguido. As estimativas fazem parte do boletim Focus, publicação divulgada semanalmente pelo Banco Central (BC), com base em projeções de instituições financeiras para os principais indicadores econômicos.
 
As instituições financeiras alteraram a projeção para a inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 7,31% para 7,28%, no quarto ajuste seguido. Para 2017, a estimativa segue em 6% há oito semanas consecutivas. As projeções ultrapassam o centro da meta que é 4,5%. O teto da meta é 6,5% este ano, e de 6% em 2017.

Taxa de juros

Em um cenário de retração da economia, as instituições financeiras esperam que o BC reduza a taxa básica de juros, a Selic. A expectativa para a taxa ao final de 2016 passou dos atuais 14,25% para 13,75% ao ano. Para 2017, a mediana das expectativas (desconsiderando os extremos nas projeções) é que a Selic encerre o período em 12,50% ao ano.
 
Essa projeção de redução da Selic é feita mesmo com a afirmação do BC de que não trabalha com a possibilidade de flexibilização de política monetária. Em entrevista coletiva de apresentação do Relatório de Inflação, na última quinta-feira (31), o diretor de Política Econômica do BC, Altamir Lopes, reforçou que não deve haver redução da Selic. “O mercado que se ajuste”, disse.
 
A taxa é usada nas negociações de títulos públicos no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) e serve como referência para as demais taxas de juros da economia. Ao reajustá-la para cima, o BC contém o excesso de demanda que pressiona os preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Quando reduz os juros básicos, o Comitê de Política Monetária (Copom) barateia o crédito e incentiva a produção e o consumo, mas alivia o controle sobre a inflação.
 
A pesquisa do BC também traz a projeção para a inflação medida pelo Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI), que foi ajustada de 7,43% para 7,41% este ano. Para o Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M), a estimativa passou de 7,68% para 7,67%, em 2016.
 
A estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe) segue em 7% em 2016. A projeção para os preços administrados foi alterada de 7,30% para 7,40% este ano e mantida em 5,50% em 2017.
E o cálculo para a cotação do dólar passou de R$ 4,15 para R$ 4, no fim de 2016, e de R$ 4,20 para R$ 4,10, ao final do próximo ano.

Coluna do Artur Xexéo em 03/04/2016

Os ídolos são os mesmos

Já que não entendo o que a Dilma fala, fui ouvir os artistas que defendem ela

Eu queria entender que golpe é esse que não vai ter. Num dos comícios que tem feito no Palácio do Planalto, Dilma tentou explicar: “A forma do golpe está sendo a ocultação do golpe.” Bem, Dilma nunca foi muito boa de explicação, né? Então é o golpe oculto. Eu sempre tive dificuldade de encontrar o sujeito oculto nas análises sintáticas. O golpe oculto, então, não vou nem tentar. É melhor ouvir os ídolos da classe artística para ver se me esclarecem. Eles estão com a corda toda. Frequentam muito os comícios da Dilma no Palácio. Chico Buarque é mais povão. Não vai a palácios. Prefere subir em palanques no Largo da Carioca. Diz que está lá em “defesa intransigente da democracia”. Ah... tem isso também. Defende-se muito a democracia. Parece que ela está ameaçada. Milhões de pessoas vão às ruas pedir o impeachment de Dilma. No dia seguinte, milhões de outras pessoas também vão às ruas em apoio a Dilma. Não há repressão, não há brigas, não há ameaças. As ruas são abertas para que os manifestantes as ocupem. De um lado e de outro. É essa a democracia ameaçada?
 
Quem sabe Letícia Sabatella me explique o que está acontecendo. Ela também está no comício para os artistas no palácio. “Eu sou oposição ao seu governo, presidenta Dilma, mas eu tenho um contentamento em poder dizer isso na sua frente e dizer que vivo num Estado que se pretende utopicamente em realidade, em transformação, em exercício, nesse momento, nesse governo de ser um Estado democrático.” Bem, não entendi completamente. Duvido que alguém tenha entendido. Mas fiquei com a impressão de que Letícia pensa que Dilma foi quem inventou a democracia. Será?
 
Acho que Letícia foi só confusa. Ela disse que vive num Estado que se pretende “utopicamente” ser um Estado democrático. Então, Dilma só chegou utopicamente à democracia. Bem que ela avisou que fazia oposição. Mas confesso que me ofendi com as palavras de Aderbal Freire Filho. Acompanho a carreira de Aderbal desde o tempo em que ele se chamava Aderbal Júnior. Ele é tão boa gente que dá para relevar a condição de ator irremediavelmente canastrão. Mas é um grande diretor. Dos mais importantes que o Rio de Janeiro abriga. Suas palavras têm importância. Aí o Aderbal vai lá e diz que o que tem vivido é uma comédia de costumes de Molière que poderia se chamar “Os virtuosos ridículos”. A plateia riu, portanto deve ter entendido. Eu não sei bem a quem Aderbal se refere. Estaria Aderbal vindo contra os que têm combatido a corrupção? São esses os virtuosos ridículos? Certamente ele não está falando de Lula, Delúbio Soares, José Dirceu ou Silvio Pereira. Esses não têm nada de virtuosos. Não visto a carapuça, então, a graça de Aderbal não me ofende. Na verdade, só fiquei ofendido quando Aderbal, lentamente, falou que “a gente vê a grande imprensa manipulando”.
 
É a velha história da imprensa golpista. Conheço uma senhora que pensa assim. Fala mal do GLOBO, acusa o jornal de ser manipulador, diz que não o lê mais, garante que só as redes sociais são confiáveis, mas liga pra colunista daqui pedindo notinha sobre a turnê na Europa do marido artista. É uma certa incoerência, não é? Não, Aderbal não tem nada a ver com isso. É só o discurso que é igual. É até ingênuo. Como se O GLOBO ou outro órgão qualquer da grande imprensa fosse responsável pelo saque à Petrobras. Mas não adianta argumentar assim. Eles não gostam de falar de corrupção. Isso é assunto para virtuosos ridículos.
 
Vejo que Beth Carvalho também está ali no palco improvisado que a Dilma armou para seus defensores. Beth me emociona politicamente. Principalmente pela sua fidelidade quase canina a Leonel Brizola. O mundo pode acabar, mas Beth Carvalho sempre será brizolista. Diria que é um amor quase maior, se não for maior, do que o que ela sente pela Mangueira. Sei que Beth votou em Dilma, sei que seu amado PDT faz parte da base aliada, mas, mesmo assim, estranho quando ela participa desses atos. É que temo que, a qualquer momento, ela esbarre no ex-presidente e quase ministro Lula. Beth, como fazia Brizola, deve ter se referido a ele várias vezes como Sapo Barbudo. Vai que ela comece a rir quando o encontrar...
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A vida não está nada fácil. Se acho que crimes de responsabilidade cometidos por quem ocupa a Presidência da República devem ser punidos com o impeachment, sou golpista. Se acho que qualquer pessoa tem o direito de apresentar uma denúncia no Congresso pedindo o impeachment da presidente, sou fascista. Se acho que a corrupção não é justificada pelo ganho social, sou coxinha. Respiro fundo. E aplaudo Chico, Aderbal, Beth e Letícia por exercerem seu direito de se manifestar. Se depender de mim, ninguém vai ter exclusividade sobre o uso da democracia.
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No mais, é como diz a presidente Dilma, agradeço a todos e a todas.


http://oglobo.globo.com/cultura/os-idolos-sao-os-mesmos-19007639

2016/04/03

Editorial da Folha de São Paulo, de 03/04/2016

NEM DILMA NEM TEMER
 
A presidente Dilma Rousseff (PT) perdeu as condições de governar o país.
 
É com pesar que este jornal chega a essa conclusão. Nunca é desejável interromper, ainda que por meios legais, um mandato presidencial obtido em eleição democrática.
 
Depois de seu partido protagonizar os maiores escândalos de corrupção de que se tem notícia; depois de se reeleger à custa de clamoroso estelionato eleitoral; depois de seu governo provocar a pior recessão da história, Dilma colhe o que merece.
 
Formou-se imensa maioria favorável a seu impeachment. As maiores manifestações políticas de que se tem registro no Brasil tomaram as ruas a exigir a remoção da presidente. Sempre oportunistas, as forças dominantes no Congresso ocupam o vazio deixado pelo colapso do governo.
 
A administração foi posta a serviço de dois propósitos: barrar o impedimento, mediante desbragada compra de apoio parlamentar, e proteger o ex-presidente Lula e companheiros às voltas com problemas na Justiça.
 
Mesmo que vença a batalha na Câmara, o que parece cada vez mais improvável, não se vislumbra como ela possa voltar a governar. Os fatores que levaram à falência de sua autoridade persistirão.
 
Enquanto Dilma Rousseff permanecer no cargo, a nação seguirá crispada, paralisada. É forçoso reconhecer que a presidente constitui hoje o obstáculo à recuperação do país.
Esta Folha continuará empenhando-se em publicar um resumo equilibrado dos fatos e um espectro plural de opiniões, mas passa a se incluir entre os que preferem a renúncia à deposição constitucional.
 
Embora existam motivos para o impedimento, até porque a legislação estabelece farta gama de opções, nenhum deles é irrefutável. Não que faltem indícios de má conduta; falta, até agora, comprovação cabal. Pedaladas fiscais são razão questionável numa cultura orçamentária ainda permissiva.
 
Mesmo desmoralizado, o PT tem respaldo de uma minoria expressiva; o impeachment tenderá a deixar um rastro de ressentimento. Já a renúncia traduziria, num gesto de desapego e realismo, a consciência da mandatária de que condições alheias à sua vontade a impedem de se desincumbir da missão.
 
A mesma consciência deveria ter Michel Temer (PMDB), que tampouco dispõe de suficiente apoio na sociedade. Dada a gravidade excepcional desta crise, seria uma bênção que o poder retornasse logo ao povo a fim de que ele investisse alguém da legitimidade requerida para promover reformas estruturais e tirar o país da estagnação.
O Tribunal Superior Eleitoral julgará as contas da chapa eleita em 2014 e poderá cassá-la. Seja por essa saída, seja pela renúncia dupla, a população seria convocada a participar de nova eleição presidencial, num prazo de 90 dias.
 
Imprescindível, antes, que a Câmara dos Deputados ou o Supremo Tribunal Federal afaste de vez a nefasta figura de Eduardo Cunha –o próximo na linha de sucessão–, réu naquela corte e que jamais poderia dirigir o Brasil nesse intervalo.
 
Dilma Rousseff deve renunciar já, para poupar o país do trauma do impeachment e superar tanto o impasse que o mantém atolado como a calamidade sem precedentes do atual governo.
 
 
 

2016/04/02

Tiros no pé

 

A estratégia da presidente Dilma Rousseff para evitar o seu impeachment tem a marca registrada de sua trajetória política: o voluntarismo. Por isso mesmo, cada vez que discursa no Palácio do Planalto para denunciar a fantasiosa tentativa de golpe de Estado da oposição de que se diz vítima, mais aumenta o seu isolamento na nossa sociedade e, também, internacional.

Dilma trata a disputa política que se instalou no Congresso como uma questão de vida ou morte. Do ponto de vista de seu mandato, faz sentido, mas o mesmo não se pode dizer em relação à democracia. Seu governo é um fracasso e não tem a menor chance de dar certo, pois atravessou a linha divisória que o separa do razoável, numa rota que não tem volta. É ruim e péssimo e não tem chances de recuperação.

O impeachment é um recurso constitucional do Estado democrático para interromper a trajetória de maus governos, antes que a sociedade seja conflagrada. A retórica de Dilma, porém, aposta na conflagração política e social para evitar que esse instrumento legítimo seja utilizado. Sua retórica é a de quem a vê a luta política na ótica da guerra civil, o que revela o âmago de suas concepções políticas, considerando-se a opção que fez pela luta armada durante o regime militar e a crença de que a revolução se confundiria com a queda da ditadura. Isso é perigoso, revela uma visão instrumental da democracia.

As manifestações de apoio ao governo organizadas pelo PT para barrar o impeachment, emulando com os protestos convocados pela oposição, referendam a retórica de Dilma com discursos, bandeiras e balões. Procuram resgatar velhas palavras de ordem de esquerda que a legenda abandonou no toma-lá-dá-cá patrimonialista e fisiológico, que pautou sua atuação no governo. A radicalização e o sectarismo governista estimulam setores reacionários e fascistas que se opõem o governo e têm o nítido propósito de inibir e de intimidar os cidadãos sem-partido que protestam pacificamente.  É uma escalada também  perigosa, que chega aos salões do Palácio do Planalto em discursos e gritos de autoridades e representantes de movimentos sociais.

Uma avaliação serena das mobilizações, cujos números são inflados por seus organizadores, porém, revela que não são suficientes para suplantar a vontade das ruas a favor do impeachment. Isso não significa que não tenham um papel a cumprir, pois servem de cortina de fumaça para as articulações que estão sendo feitas para abafar a Operação Lava-Jato e articular os setores mais oportunistas do Congresso com promessas de cargos e verbas, para dizer o mínimo, e barrar o impeachment. Essas ações, sim, são mais eficazes e podem resultar na permanência de Dilma no poder.

Com relação às investigações do chamado “petrolão”, houve significativa mudança de postura do Palácio do Planalto. Dilma procurava manter distância regulamentar da Lava-Jato, operando nos bastidores através do ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, agora na Advocacia Geral da União. Com a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a Casa Civil, cujo objetivo foi provocar a mudança de foro da Justiça Federal de Curitiba para o Supremo Tribunal Federal, o Palácio do Planalto passou a operar abertamente para desmantelar a força-tarefa da Lava-Jato.

Visando afastar o juiz federal Sérgio Moro do caso, já foram feitas quase duas dezenas de representações no Conselho Nacional de Justiça contra ele.

Uma operação da envergadura da Lava-Jato, sob responsabilidade de um único juiz, jamais estará livre de erros e eventuais excessos, mas,  para corrigí-los, existem os tribunais regionais e os tribunais superiores, principalmente o Supremo. Toda decisão monocrática está sujeita aos tribunais e que mudou as regras do jogo do trânsito em julgado foi o STF, ao limitar i direito dos réus s responder em liberdade a partir da segunda instância. Mas o que se quer em relação à Lava-Jato é jogar fora a criança com a água da bacia. Usa-se de todos os recursos contra o juiz Moro, que atualmente é obrigado a andar com escolta de 15 agentes federais, uma vez que as investigações sobre o que era chamado de “crime de colarinho branco” chegaram ao submundo do crime organizado, ao se aproximar do caso Celso Daniel.

Por trás de velhas palavras de ordem, que prometem uma guinada à esquerda na política do governo para mobilizar os setores de esquerda que ainda apoiam Dilma e retirá-los da defensiva moral, opera-se um giro à direita nas alianças do governo, em substituição ao PMDB. Dilma promete o Ministério da Saúde ao PP, partido com maior número de envolvidos na Lava-Jato, na esperança de garantir 49 votos na Câmara contra o impeachment. Outros 40 votos do Partido da República e 31 do Partido Social Democrático seriam garantidos com nomeações para órgãos do governo, como a Funasa e a Casa da Moeda. Um pool de pequenos partidos (PTN, Pros, PHS, PT do B, PSL) proveriam 27 votos.

Dilma armou uma barraca de feira no Congresso. É a xepa!

Ninguém sabe o que vai acontecer nessa crise. Muitos atores politicos, a favor e contra o governo, estão sob investigação da Lava-Jato, na esfera do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e do ministro Teori Zavaski, do Supremo Tribunal Federal, como sãos os casos dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Mas é evidente que a presidente Dilma, o ex-presidente Lula e o PT são os agentes políticos responsáveis pelo agravamento da situaçao. Não foram capazes, até agora, de encontrar uma saída positiva para a inédita crise econômica, ética e política que assombra o mundo. Ao contrário, são protagonistas. A oposição não teria força para isso; é apenas coadjuvante. Se houver impeachment, a força política decisiva será o aliado que Lula e Dilma escolheram para se perpetuarem no poder, nele se revezando à putiniana, o PMDB do vice-presidente Michel Temer.

Quem faz o Blog

Luiz Carlos Azedo
Jornalista, colunista do Correio Braziliense