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2016/04/04

Coluna do Artur Xexéo em 03/04/2016

Os ídolos são os mesmos

Já que não entendo o que a Dilma fala, fui ouvir os artistas que defendem ela

Eu queria entender que golpe é esse que não vai ter. Num dos comícios que tem feito no Palácio do Planalto, Dilma tentou explicar: “A forma do golpe está sendo a ocultação do golpe.” Bem, Dilma nunca foi muito boa de explicação, né? Então é o golpe oculto. Eu sempre tive dificuldade de encontrar o sujeito oculto nas análises sintáticas. O golpe oculto, então, não vou nem tentar. É melhor ouvir os ídolos da classe artística para ver se me esclarecem. Eles estão com a corda toda. Frequentam muito os comícios da Dilma no Palácio. Chico Buarque é mais povão. Não vai a palácios. Prefere subir em palanques no Largo da Carioca. Diz que está lá em “defesa intransigente da democracia”. Ah... tem isso também. Defende-se muito a democracia. Parece que ela está ameaçada. Milhões de pessoas vão às ruas pedir o impeachment de Dilma. No dia seguinte, milhões de outras pessoas também vão às ruas em apoio a Dilma. Não há repressão, não há brigas, não há ameaças. As ruas são abertas para que os manifestantes as ocupem. De um lado e de outro. É essa a democracia ameaçada?
 
Quem sabe Letícia Sabatella me explique o que está acontecendo. Ela também está no comício para os artistas no palácio. “Eu sou oposição ao seu governo, presidenta Dilma, mas eu tenho um contentamento em poder dizer isso na sua frente e dizer que vivo num Estado que se pretende utopicamente em realidade, em transformação, em exercício, nesse momento, nesse governo de ser um Estado democrático.” Bem, não entendi completamente. Duvido que alguém tenha entendido. Mas fiquei com a impressão de que Letícia pensa que Dilma foi quem inventou a democracia. Será?
 
Acho que Letícia foi só confusa. Ela disse que vive num Estado que se pretende “utopicamente” ser um Estado democrático. Então, Dilma só chegou utopicamente à democracia. Bem que ela avisou que fazia oposição. Mas confesso que me ofendi com as palavras de Aderbal Freire Filho. Acompanho a carreira de Aderbal desde o tempo em que ele se chamava Aderbal Júnior. Ele é tão boa gente que dá para relevar a condição de ator irremediavelmente canastrão. Mas é um grande diretor. Dos mais importantes que o Rio de Janeiro abriga. Suas palavras têm importância. Aí o Aderbal vai lá e diz que o que tem vivido é uma comédia de costumes de Molière que poderia se chamar “Os virtuosos ridículos”. A plateia riu, portanto deve ter entendido. Eu não sei bem a quem Aderbal se refere. Estaria Aderbal vindo contra os que têm combatido a corrupção? São esses os virtuosos ridículos? Certamente ele não está falando de Lula, Delúbio Soares, José Dirceu ou Silvio Pereira. Esses não têm nada de virtuosos. Não visto a carapuça, então, a graça de Aderbal não me ofende. Na verdade, só fiquei ofendido quando Aderbal, lentamente, falou que “a gente vê a grande imprensa manipulando”.
 
É a velha história da imprensa golpista. Conheço uma senhora que pensa assim. Fala mal do GLOBO, acusa o jornal de ser manipulador, diz que não o lê mais, garante que só as redes sociais são confiáveis, mas liga pra colunista daqui pedindo notinha sobre a turnê na Europa do marido artista. É uma certa incoerência, não é? Não, Aderbal não tem nada a ver com isso. É só o discurso que é igual. É até ingênuo. Como se O GLOBO ou outro órgão qualquer da grande imprensa fosse responsável pelo saque à Petrobras. Mas não adianta argumentar assim. Eles não gostam de falar de corrupção. Isso é assunto para virtuosos ridículos.
 
Vejo que Beth Carvalho também está ali no palco improvisado que a Dilma armou para seus defensores. Beth me emociona politicamente. Principalmente pela sua fidelidade quase canina a Leonel Brizola. O mundo pode acabar, mas Beth Carvalho sempre será brizolista. Diria que é um amor quase maior, se não for maior, do que o que ela sente pela Mangueira. Sei que Beth votou em Dilma, sei que seu amado PDT faz parte da base aliada, mas, mesmo assim, estranho quando ela participa desses atos. É que temo que, a qualquer momento, ela esbarre no ex-presidente e quase ministro Lula. Beth, como fazia Brizola, deve ter se referido a ele várias vezes como Sapo Barbudo. Vai que ela comece a rir quando o encontrar...
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A vida não está nada fácil. Se acho que crimes de responsabilidade cometidos por quem ocupa a Presidência da República devem ser punidos com o impeachment, sou golpista. Se acho que qualquer pessoa tem o direito de apresentar uma denúncia no Congresso pedindo o impeachment da presidente, sou fascista. Se acho que a corrupção não é justificada pelo ganho social, sou coxinha. Respiro fundo. E aplaudo Chico, Aderbal, Beth e Letícia por exercerem seu direito de se manifestar. Se depender de mim, ninguém vai ter exclusividade sobre o uso da democracia.
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No mais, é como diz a presidente Dilma, agradeço a todos e a todas.


http://oglobo.globo.com/cultura/os-idolos-sao-os-mesmos-19007639

2014/03/31

Alguém se reconhece?

COLUNA DA REVISTA O GLOBO (30/3/2014)

Quem nunca?

Nem deu tempo de a Embratur soltar uma nota oficial indignada, como é de costume. Assim que a imprensa brasileira começou a reproduzir  as dicas com que, sob o título “Brasil para principiantes”, a Fifa pretendia informar os turistas que chegarão aqui para ver a Copa do Mundo sobre peculiaridades do comportamento brasileiro, a toda poderosa dona do campeonato mundial de futebol retirou o texto do ar.

Não precisava. Afinal, não é isso que os brasileiros fazem quando o mesmo campeonato acontece em países supostamente exóticos? Lembro-me muito bem das incontáveis reportagens publicadas na imprensa daqui sobre o hábito de os coreanos comerem carne de cachorro nas refeições quando aconteceu a Copa de Japão-Coreia. Depois, a gente descobriu que carne de cachorro nem era tão comum assim nos cardápios de lá, mas não vi nenhuma autoridade coreana reclamando. Durante as Olimpíadas da China, nossos repórteres não se cansaram de chamar a atenção para o fato de os chineses terem o hábito de cuspir nas calçadas. Ninguém me avisou antes, mas eu mesmo descobri, durante a Copa da Alemanha, que alemães não consideram de bom tom passar dinheiro de uma mão para outra. No comércio, há sempre uma bandejinha ao lado do caixa para o freguês deixar as notas com o pagamento. O vendedor usa a mesma bandeja para deixar o troco. De mão para mão é falta de educação.

O texto da Fifa era respeitoso e bem humorado. “A pontualidade é um conceito muito flexível no Brasil”, constatou o autor do tal texto. E não é? Acho até que ele foi condescendente dizendo que, em qualquer encontro, “o normal é contar com uns 15 minutos de atraso”. Quinze minutos? Já vi gente aparecer com meia hora de atraso em reuniões e se surpreender por ver que os outros participantes já tinham chegado. “Puxa, mas eu cheguei praticamente na hora!”

Diz a Fifa: “Os brasileiros e as brasileiras não estão familiarizados com o costume da Europa de manter distância como uma norma de cortesia e conduta. Eles falam com as mãos e não evitam de tocar o interlocutor.” É a mais pura verdade. Pior: quando estão na Europa, muitos brasileiros continuam se comportando assim (chamar a atenção de alguém que está de costas tocando no ombro, por exemplo) e nem percebem o sustos que os locais levam quando são tocados.

O texto acrescentava que nós não gostamos de filas e sempre damos um jeito de ser mais inteligentes conseguindo um lugar na frente. Alguém tem coragem de dizer que isso é mentira? Num ponto, pelo menos, a FIFA foi precisa: que país é este em que as mulheres desfilam nuas no carnaval, mas o topless não é aceito nas praias? Um dos lembretes é daqueles que não há como reclamar: no Brasil, não se fala espanhol. Neste ponto, a Fifa foi mais irônica com os turistas do que conosco.

Talvez a Fifa tenha agido certo ao retirar o texto do ar. Mais cedo ou mais tarde, a própria presidente Dilma usaria a prerrogativa de convocar uma rede nacional de televisão para reclamar das “críticas” da Fifa. E iria dizer que nós somos pontuais, não tocamos em ninguém, que respeitamos filas, que até ela, a presidenta, faz topless quando lhe dá na telha e que o espanhol é nossa segunda língua. Antes que a crise diplomática se estabelecesse, a Fifa voltou atrás. Quando fizer o próximo “Brasil para principiantes” pode acrescentar que brasileiros não admitem que estrangeiros analisem seu comportamento. Isso só brasileiro pode fazer.
 
Artur Xexéo