2016/04/09

"Tribos perdidas" - artigo

TODO MUNDO tem um defensor do governo atual na família ou no círculo de amigos. Como já ficou estabelecido que 70% dos brasileiros apoiam o impeachment, os governistas remanescentes devem ser tratados com o respeito às minorias que caracteriza as democracias. Os que praticaram crimes contra a nação e os pagos para aplaudir corruptos devem enfrentar os tribunais de Justiça ou de sua consciência. A seguir, as tribos mais comuns.


 1. Envergonhados - Honestos e bem-intencionados, não conseguem se livrar do pensamento maniqueísta do passado protopetrolão (esquerda, bom; direita, ruim). Duas palavras os identificam imediatamente: "Eduardo Cunha". Assim reagem a qualquer comentário sobre os abusos incessantemente revelados. Querem dizer que "todo político" é a mesma porcaria, mas Eduardo Cunha é o pior de todos. Demandam calma e compreensão por seus corações partidos.

 2. Bolsistas - Uma variação da tribo acima. Abraçaram ideais de esquerda na juventude e continuam levando uma boina de Che Guevara, metaforicamente, na cabeça. O marxismo, mesmo para quem nunca leu Marx, tem um forte componente religioso, uma "resposta única" para todos os problemas. Mudar de ideia dá trabalho e exige autocrítica na imagem que fazemos de nós mesmos. Egos fragilizados têm dificuldades para fazer isso e devem ser tratados com cuidado.

3. Classistas - Pessoas de classe média que acham bacana e até revolucionário dizer que "a classe média brasileira" é a maior de todas as abominações. Numa coisa, têm razão: o movimento contra os corruptocratas cresceu entre a classe média. Até bem recentemente, elites empreendedoras defendiam o governo, ocupadas que estavam em aproveitar- se de benesses como pegar dinheiro barato e usá-lo em financiamentos a juros catastróficos para os mesmos brasileiros cujos impostos suados sustentavam essa imoralidade. É difícil, mas precisamos ser pacientes com eles e garantir que continuem no inferno na classe média. Se esta sobreviver à hecatombe econômica.  

PROMETEMOS NÃO EXERCER A TIRANIA DA MAIORIA ATÉ CONTRA ASNICES 

 4. Historicistas - Invocam exemplos do passado, como Getúlio Vargas, Jânio Quadros e João Goulart, para comparar com situações do presente. São argumentos autodestrutivos. Getúlio implicaria alguém se suicidar, depois de um próximo ter mandado matar um oposicionista. Jânio cometeu suicídio político. Apesar de treinado pelo mestre Getúlio, Jango foi o presidente politicamente mais inábil, entre os que sucederam a ele, até o advento da atual governante. Mas teve a grandeza de não incitar reações que levariam ao derramamento de sangue. Deem livros do historiador José Murilo de Carvalho de presente a eles.

 5. Antievangélicos - Na visão deles, o Brasil está prestes a ser tomado por perigosos evangélicos que instaurarão uma era das trevas. A manipulação desse ódio foi explicitada numa conversa entre o ex-presidente e um de seus pupilos, o prefeito do Rio de Janeiro. "Os caras do Ministério Público são todos crentes, né?", menospreza o prefeito. Rezemos pelos preconceituosos, mesmo aqueles que não tenham fé, só para irritá-los. Os evangélicos do Rio de Janeiro também têm a opção de exercer o direito ao voto na próxima vez em que o pupilo do senhor ex-presidente for candidato a alguma coisa.

 6. Antiamericanistas - A síndrome de inferioridade diante da monumentalidade americana opera na área do irracional e não tem nada a ver com políticas dos Estados Unidos. É caso para profissionais da terapia, mas uma viagem à Disney, com mergulho intensivo em outlets, ajudaria. Primeiro, o dólar tem de baixar.

7. Racialistas - Nunca tantos brasileiros foram xingados de "brancos", por compatriotas e jornalistas estrangeiros, por se revoltarem com a corrupção. Isso num país em que, para ficar num exemplo, de todos os presidentes dos últimos cinquenta anos, apenas Ernesto Geisel tomaria café no balcão dos brancos num bar do Alabama durante o odioso sistema de segregação racial que vigorou em estados do Sul americano. O general da ditadura era de família alemã e protestante. Nós, os demais, prometemos não exercer a tirania da maioria e garantir a livre expressão de asnices. É assim que funciona a democracia.

 VILMA GRIZINSKY
Veja – ed. 2471

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