2016/03/06

Como fugir da verdade

Lula é ex-presidente. Ponto. A ele todas as garantias de ampla defesa e contraditório, expressamente garantidas na Constituição Federal, enquanto cidadão brasileiro, e tratamento igualitário a seus pares.  Parece o óbvio ululante citado pelo magistral Nelson Rodrigues, mas para boa parte da sociedade, alma impregnada de idolatria, rapapés e salamaleques, parece um ultraje dar ao ex-deputado federal do PT o que lhe é de direito por lei. Nada como o amadurecimento da democracia para termos outro cenário.

Achei magnífico o texto de Gois em O Globo de ontem, postado neste blog. Um resumo de tudo, uma reflexão. Portanto, da minha parte considerei que nem caberiam mais comentários, até me deparar com uma situação delicada, que pode se tornar perigosa – efetivos confrontos.
Antes, exponho uma linha de raciocínio. Muita gente, para não dizer a totalidade dos que se opõem a Lula, não entende porque petistas, simpatizantes e seguidores de determinadas linhas trabalhistas o defendem cegamente, assim como outros “guerreiros do povo brasileiro”, a maioria presa por ilícitos comprovados, defenestrando como trastes a Justiça e a imprensa, desqualificando todos os indícios e mesmo provas apresentadas num buraco negro de corrupção nunca antes verificado na história deste país, ao que tudo indica. O escudo é a perseguição política, como se houvesse uma gigantesca articulação entre todos os poderes constituídos e segmentos da sociedade apenas para atacar o ex-sindicalista; como se isso fosse simples e possível.

Lula foi presidente do Brasil, por dois mandatos. Definitivamente não é pouca coisa. Desde o início dos anos 80, ele foi a grande esperança do povo brasileiro, a possibilidade da representação de todas as classes no poder, o avanço da democracia. Não é com alegria que escrevo, mas o que move os seus seguidores hoje é justamente a impossibilidade, por questões próprias, ou a incapacidade de ver que o sonho não vingou, que o PT, mesmo gritando aos ventos os avanços sociais que garante ter levado à frente, falhou Lato sensu, e Lula, além de decepcionar, trilhou o caminho do tripé egocentrismo, vaidade e soberba.  Há quem não queira acreditar.
Uma das grandes falhas dos simpatizantes do PT, ao meu ver, quando questionados sobre os “mal feitos” citados pela presidente Dilma, é imediatamente levantar a bandeira do maniqueísmo, referindo-se ao PSDB, FHC, Aécio e outros. Aqui, destaque para dois pontos – o primeiro é que, de novo pelo óbvio ululante, todos os erros e ilícitos devem ser apurados e punidos, ou seja, qualquer irregularidade cometida pelos tucanos não pode e não deve ser usada como justificativa para erros e ilícitos petistas. Se acreditam que os tucanos não foram investigados como deveriam ser, cobrem da Justiça, não do povo. O outro, mais explosivo, é justamente o de esquecer que há outros partidos e movimentos sociais envolvidos na questão, fazendo do país este atual Brasil partido, o “nós contra eles”, um Fla x Flu no qual dificilmente haverá fair play, como já sentido.

Acredito que foram dadas a Lula, até agora, chances para se explicar e provar inocência. Óbvio ululante pela terceira vez, me perdoem a redundância, mas se alguém é injustamente acusado de algum ilícito não cometido, este não seria o primeiro a querer provar, efetivamente, a sua inocência? E isso não seria difícil, pois, se inocente, tal situação pode ser comprovada. Mas ele preferiu tachar as acusações de calúnias, de perseguição, foi incoerente em vários momentos quanto a fatos a ele direcionados e usou os meios de que dispõe para acusar. Contratou advogados de notável saber, caros, e se utilizou de disposições, legais, para tentar sequer depor, ao mesmo tempo em que dizia que um simples ofício do juiz federal Sérgio Moro serviria para ele prestar esclarecimentos. Sinto muito, mas a incoerência é Wally.
E aqui chegamos: para a militância, ao invés de provas e explicações, um discurso de auto-promoção, provocação e instigação a posições de trincheira e ataque, como se não existisse  o democrático estado de direito. Até chegar ao destempero do xingamento público, que uma aliada, no afã de se mostrar solidária, expôs a toda a sociedade. Alguém deve ter ouvido poucas e boas.

Penso que o ex-operário que chegou à presidência pode e deve dar ao menos uma única demonstração, no atual momento político brasileiro, do que faria um real estadista – evitar o recrudescimento da divisão de classes e do ódio, não insuflando a militância, o que pode tangenciar a baderna social, agindo com e pedindo serenidade. Talvez, caso isso ocorra, embora particularmente eu considere difícil, esse venha a ser o maior legado por ele deixado.

Um bom domingo a todos!

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